
Assim que chego ao apartamento de Clo Orozco, para um perfil que tinha como foco suas preferências gastronômicas, ela abre um sorriso e diz que o tema é uma de suas grandes paixões. Da sua sala ampla, é possível ver o quanto a culinária está presente no seu dia-a-dia. Num dos cantos, abre-se uma porta, através da qual está uma cozinha gourmet recheada de livros, dezenas de utensílios, louças para variadas ocasiões, além de um fogão industrial, onde ela realiza receitas para diárias si própria ou então jantares semanais para seus amigos.
“Tudo o que se refere à gastronomia me atrai. Não perco um programa do Claude Troisgrois na TV. Anoto todas as receitas e depois as recrio. Uma que faz muito sucesso entre meus convidados é um lombo com osso que faço em cocção lenta, e que vai acompanhado de um purê de caju e farofa de castanha de caju”, diz ela, que costuma anotar o que serviu para cada convidado, para nunca repetir o mesmo prato para cada um deles.
Clo diz que quem lhe despertou a paixão pela gastronomia foi o ex-marido, Carlos Alberto Dória, escritor, com diversos livros publicados na área da sociologia da alimentação. “Até hoje fazemos viagens em busca de ingredientes, restaurantes, pequenas feiras no interior da França. Agora mesmo voltamos de uma viagem a Itália, onde fui visitar vendedores de trufas. Mas não gosto de falar muito em trufa aqui no Brasil. Acho esnobe. Trufa é um alimento para se comer apenas uma vez por ano na Europa, e pronto”.
De suas viagens gastronômicas pelo mundo, Clo diz ter se encantado com a gastronomia simples servida em cada cidadezinha francesa e italiana. Mas ela teve oportunidade de conhecer também chefs consagrados. Foi há pouco tempo a um dos restaurantes de Ferran Adriá, que ela classifica como “gastronomia lunática”, meio sem interesse.
“Sempre que viajo em busca de gastronomia, trago livros maravilhosos, que acabam virando meus grandes companheiros”, diz. Ela conta que os usa diariamente, para receitas que cria a cada dia para si própria. “Hoje saio menos, mas faço questão de ter pelo menos uma refeição diária super agradável. Minha empregada, Denise Santos, a chef da casa, deixa produtos pré-preparados a cada dia, e, quando chego do trabalho, abro um vinho e crio meu jantar, que é quase sempre um prato sem muita proteína, com muitos vegetais”, diz ela, que está numa “fase legumes italianos”, como diz.”Abobrinha, tomate, berinjela grelhados. Quer coisa melhor?”
Foi nesta linha de inspiração que criou um prato na tarde em que estive na sua casa. Ela abriu um livro de receitas do chef Antonio Carluccio e fez um ravioli caseiro recheado de ricota com espinafre, que trazia uma gema de ovo mole no ninho do recheio. Se na receita original, o chef usa trufa ralada em cima da gema, ela abre sua licença poética e diz, cerimoniosa: “Sem o tubérculo o prato é igualmente delicioso”. E ficou bom mesmo. Massa leve, fininha, com recheio untuoso... enfim, um prato inspirado e delicado, assim como são suas coleções.
(texto adaptado de matéria que publiquei na revista Gourmet Life)





