terça-feira, 24 de março de 2009

Arouche assiste à noite de brilho de Jacobs


O Largo do Arouche nunca viu tanto brilho, e bolsinhas Louis Vuitton, com certificado de procedência, diga-se de passagem. O fato aconteceu na noite de sexta passada, na festa armada por Natalie Klein ao estilista Marc Jacobs - com quem acaba de abrir uma loja nos Jardins - na boate Cantho, reduto de gays populares do centro de São Paulo.
Como só entrava quem estava paramentado de convite, os habitués da casa ficaram por ali mesmo, para ver tantos vips, como Dudu Bertholini (o que mais brilhava, numa roupa dourada), Natalie Klein, com o namorado Tufi Duek, Michel Klein, Carolina Ferraz, Carlos Jeiressati Filho, Costanza Pascolato, Erika Palomino, Glória Coelho e Reinaldo Lourenço, Isabella Prata e Idel Arcuschin, Daniela Falcão, Alexandre Herchcovitch, além de mais de 400 pessoas que orbitam em torno destas.
"Hoje é festa de gente do poder", disse um rapaz que entrou nas fila da sua balada predileta em São Paulo, pouco depois de ser informado pelo segurança que ali haveria uma festa particular. Um pouco mais informados, Edilson Afonso e Paulo Henrique Collim viram na internet que ali aconteceria a festa para o estilista Marc Jacobs. "Não o conheço, mas vim assim mesmo para ver o que estas pessoas estão vestindo", disse Afonso.
Explico para o rapaz que o "tal" do Jacobs é o designer das bolsas Louis Vuitton, entre tantos feitos. Ele diz: "Ah, então já sei. Tenho um boné da Vuitton". E onde você o comprou?, é minha pergunta óbvia. "Na 25 (de Março)", diz, categórico, antes de pedir licença para não perder os modelos que desfilavam pelo cercadinho, que dava acesso à portaria da boate - enfeitada com o nome de Jacobs bem grande, em neon vermelho.
"Vi na net que até a dona das casas Bahia vai estar aí", disse o amigo, Collim, referindo-se à herdeira da rede de lojas Natalie, antes de seguir para o canteiro central da avenida, onde se encontravam mais pessoas dispostas a acompanhar a chegada dos convidados da festa.
De lá, uma garota gritava: "Bonito seu vestido, tia", ou "Olha a mulher da novela (referindo-se a Carolina Ferraz, que chegou sorridente)", ou ainda "Até a chapeuzinho vermelho veio (quando Carol Bueno chegou com uma boina vermelha)".
Próximos à entrada da boate, muitos perguntavam à reportagem se ali não era mais a Cantho. Geraldo Donato, frequentador da casa, espantou-se ao saber que ali aconteceria a festa para Jacobs. "O quê? Não acredito, você fala sério?", exclamou, enquanto arrumava os óculos em direção ao letreiro com o nome de Jacobs brilhando na porta da boate.
Disse ao seu amigo Magnum Camilo: "Mona, você não tem noção de quem vai estar aqui hoje, é uma noite histórica na Cantho ", recebendo a indiferença do amigo, que apenas queria dançar na sua boate preferida.
A chegada de Marc Jacobs - 1h30 da manhã - causou frisson em Donato e em diversas pessoas que estavam ali. Até uma mendiga colocou-se a desfilar no canteiro do meio da avenida. Enquanto um garoto dizia que ia pedir "money" para o estilista.
O rapaz chegou de camisa branca aberta no peito, kilt preta e coturno, concentrado, ar meio zen, discreto, e muito chique, claro, posando para fotos, sempre sorridente. Acompanhavam alguns amigos e seu namorado brasileiro, o publicitário Lorenzo Martone, igualmente sorridente, que mostrava a aliança do recente noivado.
Dentro da casa, discrição era a palavra-chave - como a anfitriã e o convidado de honra parecem pedir (ela vestia uma das criações do estilista).
Marc Jacobs, namorado e amigos sentaram-se num sofá, no segundo andar da casa, com vista para a pista de dança, e lá permaneceram o tempo todo.
Assédio? Claro que houve. Vez ou outra o estilista - sempre de mãos dadas ao namorado - recebia designers nacionais, assessores de imprensa, jornalistas de moda com câmera na mão, amigos dos jornalistas de moda, amigos dos amigos dos jornalistas de moda.
Sorridente, e, principalmente, paciente com o assédio, nada indicava que ali estava uma das pessoas mais influentes da moda hoje em dia, um rapaz culto, colecionador de arte, conhecedor de história, amante do cinema dos anos 40, que direciona muito do que se veste nas ruas do planeta.
A boate Cantho nunca viu tanto Champagne (Veuve Clicquot), servido em taças de cristal, e acompanhado de sanduichinhos de atum, mini cuscuz, sorvete de amora e brigadeiro. A música era anos 80, numa referência brincalhona ao mix de épocas, estilos e referências que Jacobs tanto usa em suas coleções, e o clima era de extremo otimismo, assim como pede o figurino entre a turma da moda.

domingo, 22 de março de 2009

Quando o caju se encontra com la crème

O que seria hoje da gastronomia mundial, não fossem os encontros das culturas? Há quem fale que a gastronomia é uma arte que evolui a partir dos encontros entre os homens dos diversos continentes. Mas e quando dois chefs se encontram numa mesma cozinha? Bem, num primeiro momento, poderíamos pensar em confusão, gritos e panelas voando.
Não é isso que tem acontecido na cozinha do Brasil a Gosto, para a qual a chef da casa, Ana Luiza Trajano, chamou o marido Yann Corderon para um menu que homenageia o Ano da França no Brasil.
"Não tem briga, pois ela é quem manda", diverte-se Corderon. "Passamos uma semana amadurecendo a idéia, uma semana brigando e uma semana fazendo testes, até que o menu ficasse pronto", diz ele, entre risos. "E quando entrei na cozinha do Brasil a Gosto, os funcionários da Ana levaram um baita susto. Ela é delicada e eu tenho cara de bravo, além de medir 1,90 m", brinca.
A idéia partiu de uma viagem que ambos fizeram no fim do ano para a França, à região de Tours, de onde vem Yann. Ana conta que ficou encantada com os mercados de rua, com os produtos do supermercados, feiras e modos de preparo de receitas. "Gostei tanto que acabei desmarcando a viagem de volta, para ter a oportunidade de ir à feira livre do domingo", diz ela, folheando um álbum de fotografias tiradas nas feiras de cidades francesas, vitrines de pâtisserie e gôndolas de supermercado.
"E não é que ela fez isso mesmo, debaixo de um frio de 10 ºC negativos", completa ele. "Lá, passeando entre gôndolas e bancas, é que pensamos em fazer uma homenagem à França. Não podia haver melhor lugar do que o Brasil a Gosto para esta homenagem."
O cardápio tem verdadeiras delícias, preparadas com técnicas francesas e produtos nacionais. A Sélection Au bord de l’eau (R$39) vem com casquinha de vieira, salada de polvo e carpaccio de tucunaré com vinagrete de laranja-lima e cubos de manga. Dois pratos principais foram criados: Robalo em croûte envolto em batata, com molho de champignon de Paris e legumes brasileiros, como quiabo (R$ 56), além do steak tartare de filet mignon ao sol temperado com cachaça, com mandioca frita e folhas verdes (R$ 48). Fecha um charmoso trio de sobremesas com crème brulée de castanhas brasileiras, tarte tatin de manga e crème caramel de leite condensado (R$18).
Se Ana hoje está completamente apaixonada pela gastronomia francesa e pelas técnicas que o marido lhe ensina, nem sempre foi assim. "Pouco me despertava a cultura culinária francesa. Minhas atenções sempre se voltaram à Itália, onde estudei, e ao Brasil, naturalmente. Por isso criei um restaurante que divulga o melhor da cultura gastronômica nacional", diz Ana. "Paguei minha língua ao encontrar o Yann", brinca ela.
Pergunto como se encontraram. O chef suspira e diz que foi na festa de inauguração do Brasil a Gosto. "Vim de bicão", diz, entre risos. "E passei a noite toda olhando para ela. Em seguida, ficamos amigos por seis meses, trocamos muita receita, até que começamos a namorar."
Se o projeto do Brasil a Gosto de fazer um menu franco-brasileiro foi a primeira vez que o casal entrou na cozinha profissionalmente, eles dizem em conjunto que, em casa, cozinham sempre juntos. "Mas o Yann não abre mão de fazer o jantar todos os domingos, ao modo dele", diz ela. Mas não pense que ele faz só quitutes franceses. Seu repertório da culinária nacional é grande e sabe assar uma bela picanha, faz feijoada, leitão pururuca, farofa e moqueca, pratos que ele diz gostar. "Farofa eu faço muito. Nosso filho, Pedro, é como eu. Adora farofa", diz. Ele conta que escolhe o menu do dia de acordo com os melhores produtos do mercado. "Uma pena que aqui haja tantos produtos pasteurizados, à moda americana. Uma idiotice. Nunca vi ninguém morrer, na França, por comer queijo feito com leite não-pasteurizado. Lá comemos, bebemos e fumamos, mas nunca em excesso, nunca", diverte-se, tragando seu Marlboro, no canto da boca, enquanto dá um gole no seu aperô.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Um papo com Marie Rucki


Marie Rucki, diretora do Studio Berçot, em Paris, desde os anos 70, é um nome incontornável para quem gosta e quem quer fazer moda. Professora de Azzedine Alaia, Jean Paul Gaultier, Martine Sitbon e dos brasileiros Gloria Coelho, Lorenzo Merlino, Jefferson Kulig, Ocimar Versolato e Reinaldo Lourenço, foi convidada por Isabella Prata, da Escola São Paulo, pelo terceiro ano consecutivo, para uma série de palestras e workshops, que acontecem no Shopping Iguatemi, entre os dias 13 e 17 de abril. Provocadora, madame Rucki já disse que sapatos da Balenciaga têm design gratuito, que alguns looks de Marc Jacobs são feios, e que falta poesia a algumas roupas da Miu Miu. Aqui, no ano passado, detestou a Oscar Freire. Acho cara e fora de contexto ante a realidade nacional. Ao mesmo tempo, adorou a rua 25 de Março, que, para ela, é um dos endereços mais poéticos da capital paulista. Quando concede estas declarações, Madame Rucki costuma contextualizá-las. A provocação nunca é gratuita. Sobre os endereços de compras em São Paulo, por exemplo, diz que o verdadeiro estilo brasileiro contemporâneo é mais real no centro da cidade, do que entre os frufrus do Jardins. Chegou até a comprar um vestido nas lojas Marisa. Deixando muito fashionista de cabelo em pé e mostrando-se fiel a sua filosofia de que quem faz moda deve ter espírito curioso, ter bom humor e espontaneidade no olhar.
Segue entrevista exclusiva de madame Rucki me concedeu, na qual aborda moda contemporânea, consumismo em tempos de crise, sobre estilo pessoal, estilistas que gosta, e sobre a 25 de Março, que diz amar.

Estes dias Jean Paul Gaultier — um de seus alunos mais famosos — disse que já há muita roupa no mundo. Muita releitura desnecessária. Acha isso também? Como a indústria da moda poderia se reinventar?
A moda se reinventa a si mesma. Nem sempre é o criador que dita sua imagem. É a interpretação de mil formas artísticas e técnicas que sobrepuja o criador e seu discurso.
Em tempos de crise, como trabalhar a moda de forma mais objetiva?
A moda é um fenômeno espontâneo que não depende da crise por que deve se perpetuar mesmo nas épocas mais difíceis. Falando claramente? Creio que a moda é um meio subjetivo que obriga a superar a morosidade ambiental e inventar, reinventar e sacudir os usos e costumes.
Como a senhora acha que fica a moda num momento em que o consumismo desenfreado virou quase que um tabu?
Sempre haverá uma moda, e ela não tem freios. Sempre houve épocas de crise e a moda sempre as superou, até o momento. É claro que haverá reviravoltas radicais, mas essa purificação do sistema servirá profundamente para impulsionar a criação. A moda é um material energético que possui seus recursos mesmo diante de um crise.
Qual a grande lição que a senhora daria para um estilista em começo de carreira?
A frase de Nietzche: “Torne-se o que você é.” Cada criador é a soma de suas obsessões. E essas obsessões devem ser o motor de sua criação.
Do que a senhora tem gostado na moda, hoje? Por que?
A moda pela moda não tem outro interesse que não seja brincar com suas dificuldades, suas barreiras, e isso é muito interessante. Acredito piamente que a moda tem todo o empenho em procurar a originalidade. François Truffault dizia que o cinema do futuro irá pertencer aos que não entendem nada de cinema.
E do que não tem gostado? Por que?
As pessoas cujo discurso é limitado pela moda. Muito restritivo.
Moda no Brasil é algo muito caro ainda. Qual sua sugestão para nos vestirmos bem sem gastar muito dinheiro?
Olhem, reflitam e desenvolvam seu estilo pessoal sem se preocupar com as influências. Não esqueçam que a crise chegou por causa da explosão do consumismo. A moda também é inventar um estilo em meio à enxurrada de propostas mais baratas que pululam em lojas como H&M ou outras marcas. Em seguida, é preciso garimpar clássicos e combinar com outras peças.
Quando está no Brasil gosta de visitar alguma loja em especial? Quais estilistas a senhora visita quando está aqui?
Não quero saber do que posso encontrar na Europa. Mas tudo que tem a ver com o Brasil, que é apaixonante e pessoal. Quanto às lojas, tenho muito a trabalhar em São Paulo e pouco tempo para o consumismo. A Rua 25 de Março é sempre uma peregrinação poética.
Acha que ainda há possibilidades de aparecer no mundo algum criador tão poderoso como foi Chanel?
Rei Kawakubo, da Comme des Garçons. Seu vocabulário é apaixonante e sempre se renova.
Há ainda grandes criadores de moda hoje em dia? Quem são eles?
A expressão “Grandes criadores” me dá medo, está fora de época. Mas alguns se destacam por seu universo pessoal, como Watanabe, Rick Owens, Alber Elbaz e um novato, Christopher Kane.
Já que falamos em releituras, queria saber quais roupas nunca saem de moda. Ou seja, aquelas que podem durar anos e anos no armário e que sempre estarão na moda.
Talvez os trenchcoats. Essas roupas estão intimamente ligadas à pessoa – e é o estilo pessoal que as torna eternas com a força da personalidade de quem as usa... Para que uma roupa se eternize, seu descomprometimento com qualquer um dos sexos pode ser uma maneira de lhe conceder um estilo atemporal. Exemplo, um mantô masculino está sempre bem porque é o físico da pessoa que lhe dá forma e o eterniza. Em geral, são as peças do guarda-roupa masculino. Exemplo, sobretudos, trenchcoats, cardigãs.
Falando nisso, o que acha do vestido preto básico, que no Brasil é chamado de tubinho. Como escolher o tubinho correto? Qual está na moda hoje?
Trata-se de um clássico. Tornou-se eterno depois que Chanel o lançou. É prático, presta um bom serviço, evolui a cada estação, e a cada cinco anos, em média, segue os ditames das proporções da moda.
E por falar em roupas que duram bastante tempo, quais aquelas que o consumidor deveria investir em tempos de crise?
Os diamantes podem ser eternos, mas as roupas não. Compramos uma roupa de boa qualidade pensando que vai durar para sempre, mas de repente fica superada. De um modo geral, no período de crise dá-se prioridade à qualidade, mas mesmo assim são necessários recursos financeiros.
Das personalidades do mundo do cinema, das artes, e da moda, em geral, quais citaria como pessoas elegantes, que nunca erram na hora de se vestir?
Tilda Swinton, Charlotte Gainsbourg, Charlotte Rampling, Maria Ter Markarian, Wes Anderson.
Quais as que sempre erram?
As pessoas erram quando sucumbem ao que está na moda, às bolsas, sapatos, todo o universo do consumismo que privilegia o que está se usando agora. Não poderia lhe dar exemplos de quem sempre erra, pois seria descortês.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Esta cantora loira que canta tão bem...

Ute Lemper não se deitou no piano de cauda e não verteu lágrimas para cantar músicas banidas pelo III Reich, no concerto que fez ontem na Sala São Paulo. No entanto, esta diva alemã, lânguida, chiquérrima e sexy, assim como Marlene Dietrich, sua musa inspiradora, representou de forma exemplar as canções do repertório escolhido — pérolas do cancioneiro de Kurt Weill e da chanson francesa.
No concerto promovido pela Associação de Crianças e Adolescentes com Câncer (Tucca), mostrou a variedade e a segurança com que passeia por um repertório formado em torno de temas tão distintos. “O repertório é uma viagem entre ontem e amanhã através dos tempos e lugares do mundo. É também uma viagem através do meu coração, das minhas memórias, impressões, de minha alegria, mas também de meus momentos de dúvida e indignação sobre questões atuais do mundo”, explicou-me ela, em entrevista para a Gazeta Mercantil.
Abriu o show com Milord (Margerite Monnot/Georges Moustaki), linda, dançante, alegre. Cantou Padam Padam (Henri Contet/Norbert Glanzberg), La vie en Rose (Louisguy/Edith Piaf), Gershwin Medley, Die Moritat von Meckie Messer (Kurt Weill/Bertolt Brecht), Song of Mandalay (Kurt Weill/Bertolt Brecht), Sourabaya Johnny (Kurt Weill/Bertolt Brecht), Pirate Jenny (Kurt Weill/Bertolt Brecht), J'attends un Navire (Kurt Weill/Jacques Deval), Youkali (Kurt Weill/Roger Fernay), Saga of Jenny (Kurt Weill/Ira Gershwin), I’m Stranger here myself (Kurt Weill/Ogden Nash), Cabaret (John Kander/Fred Webb), além de All that Jazz (John Kander/Fred Webb), todas em companhia da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo, que será regida por Rodrigo de Carvalho.
A escolha variada é sua marca registrada e traz um pouco das escolhas que esta cantorafez na sua carreira. Nascida em Münster, Alemanha, Ute Lemper estudou na Academia de Dança de Colônia e na Escola de Artes Dramáticas Max Reinhardt em Viena. Participou de uma banda punk na adolescência e sua estréia no teatro ocorreu na produção vienense do musical Cats, no qual interpretou Grizabella & Bombalurina. Depois fez Peter Pan, em Berlim, além de interpretar Sally Bowles, de Cabaret, sob direção de Jérôme Savary, em Paris, pelo qual recebeu o prêmio Molière de melhor atriz no gênero musical.
Depois, viveu Lola em O Anjo Azul, em montagem berlinense; La Mort Subite, um balé especialmente criado para ela por Maurice Béjart, e Weill Revue, com o Pina Bausch Tanztheater.Suas aparições solo são lembradas principalmente pelo Kurt Weill Recital, Illusions, City of Strangers e Berlin Cabaret Evening, que tem apresentado em salas de concerto prestigiosas, como o La Scala e o Piccolo Teatro, em Milão; o Theatre de la Ville, o Theatre National de Chaillot e o Les Bouffes du Nord, em Paris; o Palao de la Musica em Barcelona; The Sydney Opera House, na Austrália; Berliner Ensemble, na Alemanha; Barbican, Royal Festival Hall e Almeida Theatre, em Londres; Alice Tully Hall e Lincoln Center, em Nova York, entre outras.
Mas a versatilidade da cantora reflete ainda sua faceta atriz — ela participou de L’Autrichienne, de Pierre Granier-Deferre; Prospero’s books, de Peter Greenaway; Moscow Parade, de Ivan Dikhovichni; Pret-a-porter, de Robert Altman; Bogus, de Norman Jewison, e, mais recentemente, de Combat des Fauves, de Benoit Lamy; A River Made to Drown in, de James Merendino e Appetite, de George Milton.
Ela diz que mesmo que suas interpretações tenham clima denso, de quem está a beira de um precipício, faz com que sua vida pessoal não seja assim. “Sou hedonista”, diz. “Adoro viver. Adoro comer, adoro vinho, os meus filhos, rir, ir ao parque e gritar”, diz ela.
De quebra, a companhia não podia ter sido melhor. Estava com o Ricardo, que disse que ela é a única cantora loura que sabe cantar. Fiquei procurando na memória e vi que ele tem razão.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Wiva Wanderléa


Dias destes, o Ivam, do Satyros, me deu uma carona, e, assim que entramos no seu carro, e ele abriu o porta-luvas e disse que tinha que ouvir o cd novo da Wanderléa, a Ternurinha. Procurou, procurou, e finalmente lembrou-se que o havia emprestado a um amigo. Na semana seguinte, Otávio ferraz, cantor de jazz do primeiro time disse mais uma vez que o cd estava danado de bom. E que a moça soltou a voz até em My Funny Valentine.
Ontem comprei o cd e não é que o negócio é bom mesmo? Ela gravou só músicas que gosto muito. Arrisco até a dizer que ela tem o gosto musical parecidíssimo com o meu. Ou eu teria o gosto igual ao dela. Acho até que se fosse produzir ou gravar um cd pinçaria as músicas que a moça escolheu.
No encarte do cd, que se chama Nova Estação (Lua Music - 2008), ela fala que a empreitada de voltar ao mercado fonográfico se deu graças ao incansável agitador cultural Thiago Marques Luiz. Veio depois de realizarem o primeiro trabalho juntos, no cd Dolores (Lua Music - 2007), um tributo à Dolores Duran.
Esqueça aquela Wanderléa amiga do Roberto e do Erasmo. Longe de mim falar que aquela fase dela não é boa. Estou falando aqui da sua versatilidade frente ao nosso cancioneiro e tbem da modernidade deste trabalho, que tem instrumental impecável, um frescor muito chique, .
Traz Se Tudo Pode Acontecer (de Alice Ruiz e Arnaldo Antunes), My Funny Valentine (interpretação linda, que deixa no chinelo muita cantora metida de jazz), Eu e a Brisa e O que é amar, ambas de Johnny Alf, Dia Branco (de Geraldo Azevedo), a faixa-título, de autoria de Thomas Roth, Choro Chorão, de Martinho da Vila, uma bela leitura do clássico de Assis Valente, Uva de Caminhão. Todos Estão Surdos (Robertao e Erasmo) também está aqui. Chico Buarque aparece em Mil Perdões, muito poética. Agora mesmo estou ouvindo a música do Antunes e da Alice Ruiz, aqui no meu radinho. Para mim, uma das músicas mais bonitas da MPB de hoje. Vejam só a letra, como já conquista pelas palavras da Alice, craque da poesia...

se tudo pode acontecer
se pode acontecer qualquer coisa
um deserto florescer
uma nuvem cheia não chover
pode alguém aparecer
e acontecer de ser você
um cometa vir ao chão
um relâmpago na escuridão
e a gente caminhando
de mão dada
de qualquer maneira
eu quero que esse momento
dure a vida inteira
e além da vida ainda
de manhã no outro dias
e for eu e vocêse assim acontecer
se tudo pode acontecer...
Fica a dica, para quem quiser ouvir boa música

terça-feira, 10 de março de 2009

Mais um kafka









Impressionante esta caracterização aí, né? Pois trata-se da bela Juliana Galdino, em "Comunicação a uma Academia", na qual interpreta um macaco, que relata à platéia como se tornou humano. Vigiada por um guarda armado (Gê Viana), a criatura fala sobre o processo de transformação por meio do qual aprendeu a se comportar como um homem. O macaco relata sua história aos excelentíssimos senhores membros da Academia. Enfatiza que lutou para aprender a se comportar como um de nós: aprendeu a apertar mãos, a fumar cachimbo (costume que caracteriza civilização), a beber aguardente, a falar (conquista suprema) e, por fim, a pensar como um de nós. O texto é do kafka e eu quero ver este macaco aí amanhã.

segunda-feira, 9 de março de 2009

As pessoas invisíveis


Hoje, vindo para o trabalho, avistei, do meu assento do ônibus, uma mulher, só de bermuda, tomando banho na rua, com galões de água, que estavam ao seu redor.
Concentrada, usava cada um dos galões e deixava escorrer a água pelo seu corpo. Ela estava super a vontade, como se estivesse no banheiro de sua casa. Encontrava-se debaixo de uma árvore, bem na frente do cemitério da Consolação, numa das avenidas mais movimentadas de São Paulo.
Tinha até xampu, pelo que pude ver. E, como o ônibus parou no farol, vi também que lavava as partes íntimas do corpo, sem o menor constrangimento.
Parecia não ter medo de ser observada, nesta cidade de voyerismos. Fiquei pensando que sua amoralidade vinha do fato dela saber que é uma mulher invisível. Faz parte do grupo cada vez maior de pessoas invisíveis, que transitam pela cidade, sem sapato, sem eira nem beira, sem rumo, sem esperança, sem amigos, angariando uma moedinha aqui outra ali.
Desviei o olhar, como que para não ser muito invasivo ao seu banho. Por respeito, apesar da minha curiosidade em observar o final da cena. Olho do outro lado da rua da Consolação, e debaixo do sol escaldante, vi uma outra mulher invisível, vestida de retalhos. Era parda, mas não sei direito identificar sua cor, pois a sujeira da poeira parece que se instalara no seu rosto. Com uma das mãos, puxava um saco grande, igualmente sujo, do qual saiam uns retalhos, todos muito sujos. Com a outra mão, puxava três crianças, uma de mão dada a outra. Todas crianças invisíveis e muito sujinhas.
De repente, percebi que muitas vezes não me choco com imagens assim, que já são invisíveis para mim... Fiquei perplexo com a minha cegueira, e, no mesmo momento em que desviei os olhos desta família, sou instigado a pensar sobre o papel da mulher no mundo, na sociedade. Me deu nojo pensar que precisamos ter um dia especial para as mulheres, um dia para as crianças, para os velhos, um dia para os gays, um dia de consciência negra. Trata-se do teatro da civilização, como todos sabem, que passa por cima de nós como um rolo compressor, que é invisível como as pessoas invisíveis, sutil, e nada mais é reflexo da crise de espiritualidade em que nos encontramos hoje.
Muitos têm falado que esta crise econômica vai ter um papel fundamental para revermos os valores sociais de hoje em dia, dizem que vai ser um soco no estômago, para que nos atentemos à essência da vida na terra. Será? Não saberia dizer. Tenho medo desta humanidade, e tenho meditado muito sobre isso. Gostaria de acreditar nesta hipótese de cura da sociedade. Mas às vezes acho que não há cura e as pessoas invisíveis vão continuar a ser invisíveis, sempre. E que o essencial não vai ser nunca muito importante no mundo em que vivemos. Por isso, não vejo tanta possibilidade de mudança. Nem com crise, nem com derramamento de sangue, nem com guerra e terremoto. Acho, no entanto, que as mulheres tem um papel muito especial na formação de uma sociedade justa, pois, naturalmente, são a personificação da vida humana. Por isso gosto de pensar sempre que elas têm o poder. E quando penso na importância que representam, me vem uma frase da poeta carioca Ana Cristina Cesar, da qual gosto muito e que é assim... “As mulheres e as crianças são as primeiras a desistirem de afundar navios”. Não sei se é o caso de comemorar o dia das mulheres, dos negros, gays, minorias e afins. Nunca gostei dessa besteirada toda. Em todo caso, gostaria de sugerir, modestamente, que as leitoras deste texto estejam sempre atentas ao seu papel fundamental de desistir de afundar navios. É isso.

quinta-feira, 5 de março de 2009

quarta-feira, 4 de março de 2009

Dez razões para ver Natureza Morta, no Satyros

O texto do Mário Viana parece ter sido bordado à mão, não só é bem acabado, tem imagens poéticas muito raras;

Anna Cecília Junqueira, a Anninha, que defende a personagem do monólogo, é linda;

Ela joga com as palavras de forma muito agradável aos ouvidos, recita, sussurra, fala de forma clara, atenta à dimensão poética da peça;

A concentração da atriz é comovente;

A encenação do Eric Lenate parece estar super afinada com o material do Mário Viana, que se inspirou num quadro do Edward Munch para falar dos tormentos e desejos reprimidos de uma mulher.... Parece que o diretor captou toda a mensagem do autor, e isso hoje virou artigo de luxo nas montagens que vejo por aí;

Tem aquelas peças que você quer subir no palco e editar, né? (Para mais tempo ou para menos) Esta aqui é curtíssima, tem meia hora, e o recado é passado de forma exemplar;

A peça é simples, sem ser simplista;

Ao abordar a saga do herói, no caso, da heroína, o texto acaba por trazer expor sua dimensão mística;

Começa às 24h no Satyros. Adoro sair de madrugada para o teatro. Uma pena que SP não tenha muitos programas assim;

Depois da peça, tem programa melhor do que se sentar nas mesinhas do Satyros para um papo bom com os anfitriões da casa, esses moços que nos emocionam tanto?

segunda-feira, 2 de março de 2009

Atenção: projeto bacana no Sesc


Projeto de autoria da atriz Mônica Sucupira, contemplado com o “Programa de Incentivo ao Teatro”, da Secretaria do Estado da Cultura, o reúne sete artistas e 16 senhoras de 64 a 88 anos, para a realização de um espetáculo baseado no resgate de suas memórias. O SESC SP e a Cia. Lambe Lambe lançam no próximo dia 4 de março, às 15h, por meio de uma aula-inaugural, o projeto Ao Cair da Tarde, de autoria da atriz Mônica Sucupira. Contemplado com o “Programa de Incentivo ao Teatro” da Secretaria do Estado da Cultura, Ao Cair da Tarde é a continuidade da pesquisa da Cia. Lambe-Lambe de Teatro e Afins, no processo de vivência artística que coloca lado-a-lado o idoso e o artista.
Composto por 50 encontros, em que 16 senhoras de 64 a 88 anos e 7 artistas das áreas de música (Michelle Agnes e Cristiano Rosa), de dança (Marize Piva), de teatro (Mônica Sucupira e Ernandes Araújo), de cinema e dança (Mariana Sucupira) e de fotografia (Tika Tiritilli), vivenciarão um processo conjunto, que resultará em um espetáculo de teatro.
“Ao Cair da Tarde” parte de um projeto anterior, a exposição fotográfica “Retrato delas com suas Fotos”, de autoria de Tika Tiritilli (prêmio PAC de Fotografia concedido pela Secretaria de Estado de Cultura de São Paulo), que teve a participação dessas mesmas 16 idosas.
Por meio de exercícios de teatro, elas trouxeram suas mais remotas lembranças de uma maneira livre e espontânea. Esses depoimentos são o ponto de partida para os artistas-criadores executarem exercícios em suas respectivas áreas para posteriormente desembocar em um espetáculo.
Será um convívio de artistas e não artistas num exercício entre arte e cidadania, entre o saber e o humano.
O resultado será encenado no Teatro Sesc Anchieta no mês de julho, com estréia prevista para o dia 30/07.
Esta mostra, que será o ponto de partida para o projeto Ao cair da Tarde, foi montada a partir das memórias de 16 mulheres de 64 a 86 anos sobre infância, sonhos, famílias e a cidade de São Paulo. Depois disso, elas responderam à pergunta: "O que levaria da cidade de São Paulo se tivesse que ir embora dela para sempre?".
As respostas foram fotografadas pelas próprias mulheres e depois projetadas em seus corpos e fotografadas novamente, desta vez, pela fotógrafa Tika Tiritilli. O trabalho corporal foi realizado pela atriz Mônica Sucupira.
Esta exposição foi contemplada com o prêmio PAC de Fotografia concedido pela Secretaria de Estado de Cultura de São Paulo, percorreu o estado em várias unidades do SESC em 2008 e estará itinerando novamente no decorrer de 2009: SESC Santana (junho), SESC Santos (julho), SESC Pompéia (agosto), SESC Interlagos (setembro), SESC Catanduva (outubro), SESC Ribeirão (final de outubro) e SESC Itaquera (novembro e inicio de dezembro). Cia. Lambe Lambe de Teatro e Afins.
A Cia. Lambe-Lambe tem seu início no ano de 1996, quando a fotógrafa Tika Tiritilli e a atriz Mônica Sucupira criaram o espetáculo interativo chamado “Quem quer brincar põe o dedo aqui”. Em 1998 uma nova criação, um espetáculo-bolso, o audiovisual poético chamado “Memória de algum Lugar”, com colaboração da bailarina-cineasta Mariana Sucupira, forma o núcleo artístico dessa companhia.
De lá pra cá são 12 criações em vários formatos. O objetivo sempre foi o de buscar possibilidades novas para a linguagem do teatro. A memória sempre é o tema das investigações e criações e decorrendo dela outros temas, como o idoso, a memória corporal do ator, a poesia como estética, a imagem como recurso narrativo.
A Cia. Lambe-Lambe, nesses dois últimos anos, intensificou sua pesquisa nos tema da memória, imagem, corpo no teatro e corpo na dança.
FICHA TÉCNICA
Artistas-Criadores: Mônica Sucupira, Tika Tiritilli, Mariana Sucupira, Marize Piva, Michelle Agnes, Cristiano Rosa, Ernandes Araújo, e Maristela Estrela
As 16 senhoras: Ana Paes, Cecília Rodrigues, Dina Otaviano, Izabel Paes Pereira da Silva, Júlia Baranowsky, Laurieta Galvina Gomes, Lucily Campo Trabanco, Mafalda Dato, Maria Aparecida Costa Manso, Maria do Carmo Ferreira, Maria Eliete Alencar, Maria Lemes Martins, Mayumi Oyamada, Railde Barbosa lima, Waldenice Nigro e Vera Archanjo Oliva
Direção:Mônica Sucupira
Assistente de Direção:
Mariana Sucupira
Iluminação: Marcio Aurelio
Figurino: Maria Estela EstrelaRealização:
Produção: Luciana Sucupira
Ao Cair da Tarde - Aula inaugural para lançamento do projeto: Dia 4 de março de 2009, Quarta, às 15h.
Local: Sala Ômega, 8º andar SESC Consolação
Rua Dr. Vila Nova, 245Tel: 3234-3000